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O cacau não vai curar você

26 de ago.
3 min de leitura


O cacau não vai curar você

Talvez você esteja esperando que eu diga que o cacau abre o coração, desperta o feminino e transforma a vida.

Mas eu prefiro começar dizendo a verdade: o cacau não vai resolver a sua vida.

Ele não vai oferecer uma resposta mágica, apagar aquilo que dói ou decidir qual caminho você deve seguir.

E talvez essa seja justamente a parte mais bonita dessa medicina.

Porque nem tudo o que sentimos precisa de cura. Às vezes, estamos apenas atravessando uma mudança que ainda não conseguimos compreender. Uma parte de nós já não se reconhece na vida que construiu, enquanto a outra ainda não sabe exatamente quem está surgindo.

Nesses momentos, talvez a gente não precise de alguém dizendo o que fazer.

Talvez precise apenas parar.


Uma planta originária das Américas

O cacau é uma planta originária da América tropical. Existem evidências de seu uso há mais de cinco mil anos na região do atual Equador. Com o tempo, ele percorreu diferentes territórios e ganhou grande importância entre povos da América Central, especialmente maias e mexicas, conhecidos também como astecas.

O cacau estava presente em celebrações, casamentos, acordos, oferendas e outros acontecimentos importantes da vida. Seus grãos eram tão valiosos que chegaram a ser usados como moeda.

Por isso, é correto dizer que existe uma relação ancestral e sagrada entre diferentes povos americanos e o cacau.

Mas a cerimônia que conhecemos atualmente com roda, música, meditação, movimento e partilha não é a reprodução exata de um único ritual antigo. É uma prática contemporânea, inspirada nessa relação ancestral e unida a diferentes caminhos de espiritualidade e cuidado.

Reconhecer isso não diminui a experiência. Pelo contrário: permite vivê-la com mais verdade e respeito.


O que o cacau realmente faz no corpo?

O cacau não é alucinógeno. Ele não provoca visões, não tira a pessoa da realidade e não faz ninguém perder o controle.

Sua principal substância estimulante é a teobromina, que pertence à mesma família da cafeína, mas costuma agir de maneira mais suave e prolongada.

Na prática, algumas pessoas podem sentir mais energia, calor no corpo, presença, disposição e uma percepção mais atenta das próprias sensações. O cacau também possui compostos que favorecem a circulação sanguínea, o que ajuda a explicar essa sensação de aquecimento e expansão corporal.

É daí que pode nascer a impressão de que ele “abre o coração”.

Mas não existe uma substância mágica abrindo emoções escondidas. O que existe é um corpo mais desperto dentro de um ambiente preparado para desacelerar.

A bebida quente, a música, a respiração, o silêncio, a intenção e a presença do grupo ajudam a diminuir o barulho de fora. E, quando esse barulho diminui, talvez a gente consiga perceber aquilo que já estava acontecendo por dentro.

Por isso o cacau é considerado uma medicina suave.

Ele não invade. Não obriga. Não arranca uma resposta.

Ele convida.


Mas a medicina não está apenas na xícara

Existe uma parte dessa experiência que a ciência do cacau, sozinha, não consegue explicar: o que acontece quando mulheres se sentam em roda e percebem que não precisam sustentar todas as respostas.

Nós crescemos sendo comparadas umas às outras.

Aprendemos a observar quem é mais bonita, mais desejada, mais bem-sucedida, melhor mãe, melhor companheira ou aparentemente mais feliz. Muitas vezes, fomos ensinadas a enxergar outra mulher primeiro como comparação ou ameaça, e não como possibilidade de apoio.

O encontro rompe, ainda que por algumas horas, essa lógica.

Quando uma mulher encontra coragem para dizer “eu não estou me reconhecendo”, talvez outra finalmente perceba que não está sozinha.

Quando uma fala, a outra pode encontrar palavras para algo que sentia, mas ainda não conseguia nomear.

Talvez seja por isso que tantos encontros entre mulheres sejam vividos como cura. Não necessariamente porque algo estava doente, mas porque aquilo que era carregado no silêncio finalmente encontrou escuta, nome e companhia.

A medicina está no cacau, mas também está na roda.

Está na música.

Está no silêncio que não constrange.

Está na mulher que compartilha uma história e, sem saber, ilumina uma parte da história de outra.


Uma experiência para se permitir

Na nossa imersão em Caraíva, viveremos uma experiência com a medicina do cacau entre mulheres que atravessam suas próprias viradas.

Conduzida pela terapeuta Paula Tamikuã @corpo.emreza

Não será uma promessa de cura, uma fórmula pronta ou uma resposta sobre o que cada uma deve fazer da própria vida.

Será uma pausa.

Um momento para perceber o corpo, ouvir outras mulheres e se permitir sentir sem precisar explicar imediatamente o que está acontecendo.

Talvez você não esteja procurando um novo caminho.

Talvez esteja apenas precisando de silêncio, presença e companhia para voltar a caminhar ao seu próprio lado.

 
 
 

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